10/17/2019
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MJV Team

Super apps e omnidata: por trás do UX chinês

Há um mercado potencial de 1,4 bilhão em dados na China. Para explorá-los, é preciso estratégia. Confira como isso influencia no construção do UX chinês

Se você já fez compras na Amazon, provavelmente notou seu design minimalista. Também é provável que você tenha escutado que o layout foi criado com base em hacks para atrair usuários e gerar mais vendas.

Agora, experimente comparar o site da Amazon ao de uma varejista oriental. Algumas das sensações que você pode ter são as de poluição visual, desordem e até saturação de informações.

Parece simples, mas essas diferenças são cruciais na compreensão do mercado de e-commerce chinês. Com cerca de 21% do tráfego online mundial, acredite, todo mundo quer um pedaço da China.

Nesse post, você entenderá a formação da cultura mobile-first na China, como o conceito de omnidata se liga aos super apps e como os fatores culturais influenciam os quesitos de usabilidade, interface e hierarquia da informação. Confira.

Uma história sobre o mobile-first na China

Durante a década de 90, a China ainda nutria relações exteriores bastante complexas com o resto do mundo e isso isolava o país. Sem doses saudáveis de abertura política e econômica, os chineses ficaram para trás no desenvolvimento de computadores e nos assuntos relacionados com a World Wide Web.

Mas a transformação de sua sociedade em mobile-first não aconteceu por acaso. Quando o bonde do desenvolvimento passou novamente, no início da década de 2000 com os celulares, o país agarrou a oportunidade.

Posteriormente, isso deu à China certa vantagem competitiva, já que o processo de migração para o mobile foi natural, diferente dos países desenvolvidos. Assim, o processo de Transformação Digital chinês já se deu na era mobile.

O novo petróleo: a corrida dos dados

Mas por que a China mergulhou tão fundo na cultura mobile? Para criar um modelo de governança digital no país.

Do 1,4 bilhão de pessoas vivem na China, 1,1 têm acesso à Internet. Esses números mostram o volume de dados disponíveis na sociedade chinesa.

Bem, você com certeza já ouviu por aí que os dados são o novo petróleo. Nós afirmamos que são ainda melhores do que isso. Porque dados geram insumos recorrentes.

O governo chinês entendeu isso e iniciou sua corrida dos dados. O objetivo? Coletar informações de forma integrada para antecipar tendências e comportamentos.

Para isso, contaram com a inteligência de dados de grandes empresas locais. E dessa expertise emergiram os super apps, um ecossistema de integração de dados de diferentes origens. É a evolução do omnichannel para omnidata.

Omnidata, super apps e novos modelos de negócios

A premissa dos super apps é a mesma das redes sociais: reter a atenção do usuário pelo maior tempo possível. O modelo aposta na convergência de canais para simplificar a experiência do usuário. A palavra-chave é conveniência.

O exemplo soberano de super app é o WeChat. Lançado em 2011 como aplicativo de mensagens, o concorrente do WhatsApp ultrapassa a marca de 1 bilhão de usuários ativos.

O super app conquistou esses números acumulando funcionalidades. Nele, além das mensagens, é possível fazer pagamentos, postar nas mídias sociais, pedir comida, utilizar serviços de car sharing, entre outros.

Mas o que há de tão diferente entre WeChat e WhatsApp? A lógica inicial do serviço. O WeChat foi criado a partir de platform thinking: um produto que será continuamente aprimorado. Enquanto isso, o Facebook ainda estava realizando a aquisição do WhatsApp.

Essa diferença conceitual sobre o serviço é apenas a uma de muitas. Quando o assunto é a cultura chinesa, elas se acentuam, como você verá no tópico a seguir.

UX chinês x UX ocidental

Espera! O que isso tudo tem a ver com UX? Tudo. Porque o UX chinês é projetado especialmente para a coleta de dados. E isso norteia todos os métodos de usabilidade.

Aos nossos olhos, um site chinês pode passar a ideia de desordem e confusão. E pode até ser verdade – mas funciona. É necessário estudar a fundo as boas práticas locais para que o choque cultural não seja uma barreira de entrada.

Veja algumas boas práticas de responsividade, usabilidade e hierarquia para ter sucesso no ecossistema de negócios digitais na China:

Mobile-first

Como você sabe, os chineses perderam o boom dos computadores. No entanto, o número de usuários de smartphones supera os 700 milhões. Ter um site responsivo é uma obrigação, não uma opção.

Estética do branco

O uso da chamada “área de respiro” é uma das boas práticas do design ocidental. Mas não na China. Explicamos.

No início, os consumidores chineses não tinham os melhores celulares do mundo – o submundo shanzhai, inclusive, foi uma dos responsáveis por disseminar a cultura mobile. O que existia, no momento,  eram celulares menores e menos potentes.

Assim, os designers precisavam certificar-se de que todas as informações que o usuário precisasse estariam lá. Isso explica o layout carregado.

Importante: o branco também é a cor do luto na China e é pouco usada no dia a dia.

O vermelho, por outro lado, é uma cor historicamente bem recebida e não tem relação com os significados ocidentais. A Amazon, por exemplo, utiliza cores neutras. A Tmall, varejista chinesa, prefere o vermelho claro.

Hierarquia visual

Nos sites chineses, você raramente verá títulos e legendas de tamanhos diferentes. O motivo? O alfabeto chinês não tem distinção entre letras maiúsculas e minúsculas. Além disso, na China, são as cores que dão pesos diferentes para as informações.

Novas guias

Nos primórdios da internet chinesa, a conexão era tão lenta que os sites passaram a permitir que qualquer conteúdo fosse aberto em uma nova aba. 

Qualquer coisa mesmo.

 Isso permitia que os usuários pudessem consumir conteúdo enquanto aguardavam o carregamento de outros.

Embora a conexão hoje seja uma das melhores do mundo – chineses já são expoentes no 5G -, o hábito ainda persiste. Adote o Ctrl+T: sempre abra novas abas.

Bônus: QR codes

Você já deve ter se perguntado porque os QR codes nunca pegaram por aqui. China explica.

Com o atraso chinês em relação à Internet, os primeiros sites foram criados no ocidente. Só que o alfabeto chinês é formado por ideogramas e não letras como as nossas, o que causava extrema dificuldade na digitação dos endereços.

Para driblar isso, era preciso usar uma solução que enviasse as pessoas para uma página sem que precisasem digitar: os QR codes.

Por trás do UX chinês: uma cultura única

Por bastante tempo, os chineses tiveram apartados da convivência com o ocidente, seja por opção própria ou por diferenças culturais. Mas o jogo virou.

Com linguagem e códigos próprios, a China tornou-se o mercado mais próspero do planeta – e o mais desafiador. As gigantes ocidentais estão fazendo um movimento rumo ao oriente. Atualmente, todos querem empreender na China, que oferece um mundo novo de consumidores em potencial. 

Cabe observar além da superfície e analisar o modus operandi digital do país – e da sua cultura como um todo. Afinal, como dizia Steve Jobs, “design não é só a aparência, é como funciona”. E parece que os chineses aprenderam direitinho.

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